Mulheres conquistam espaço na cafeicultura com o 'café feminino' de Poço Fundo, MG

 

Projeto que nasceu na pequena cidade do Sul de Minas promove igualdade de gênero e valoriza o trabalho das mulheres no campo. Hoje o projeto conta com produtoras de diversas cidades da região



Não é incomum ver mulheres nas lavouras de café, mais especificamente, trabalhando na colheita. Mas, de alguns anos para cá, elas têm conquistado espaço e voz nesse ambiente considerado masculino, assumindo o protagonismo da produção e dos negócios, desde o plantio até a venda do produto. Foi justamente pensando em conquistar igualdade de gênero e para valorizar o trabalho da mulher na produção de café, que surgiu o Café Feminino de Poço Fundo, resultado do trabalho do grupo Mulheres Organizadas Buscando Igualdade (MOBI) e da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (Coopfam).

Quando o MOBI surgiu, ainda como um grupo dentro da própria cooperativa, a ideia era reunir e organizar mulheres para conquistas políticas, sociais e de igualdade de gênero, não necessariamente para produzir café. Ali, juntas, as mulheres perceberam que o café as unia, fortalecia e dava mais visibilidade ao trabalho da mulher no campo.



“Quando uma de nossas colaboradoras nos contou que nos EUA havia uma compradora que só comprava cafés produzidos por mulheres, nós pensamos que podíamos fazer isso, que tínhamos condições e acabamos enviando um container com o nosso café para lá. Aí, o presidente [da cooperativa] na época sugeriu para produzirmos um café feminino daqui, torrado e moído e a gente foi fortalecendo essa ideia. Só que no começo ele era uma linha do Café Familiar da Terra, ele fazia parte da linha, não era uma marca própria,” contou Rosângela de Souza Paiva, vice-coordenadora do Grupo MOBI e produtora de café em Poço Fundo.

Oficialmente, o café feminino foi lançado em 2013 durante a Semana Internacional do Café. A princípio, como Rosângela disse, era o Café Familiar da Terra – Orgânico Feminino. Pouco tempo depois, com o sucesso do produto, foi lançada a marca própria, um trabalho em conjunto liderado pelas mulheres do MOBI, que buscavam reconhecimento pelo trabalho desenvolvido na produção de cafés.

Atualmente, são cerca de 60 mulheres produtoras de café, orgânico e também sustentável, mas ainda há várias propriedades em processo de certificação. As lavouras que produzem o café feminino não se restringem somente a Poço Fundo, mas também estão em outros municípios, como Andradas, Campestre, Campos Gerais, Caratinga, Machado, Poços de Caldas, Pouso Alegre e Silvianópolis.


Mulheres que apoiam mulheres

Para Rosângela, o café feminino é uma forma de fazer com que as mulheres também sejam protagonistas no ramo da cafeicultura. Apoio, incentivo, cursos de capacitação, troca experiências e até mesmo autoestima elevada são outros benefícios que a marca proporciona a quem faz parte dela.

“A gente costuma dizer que o café feminino é mais do que um café, ele é um projeto, ele é sonho, ele é autoestima, a mulher tem um grupo que apoia, que traz igualdade, desenvolvimento. É mais do que um grupo de apoio, é uma forma de eu ver na outra o que eu já passei, sentir o que a outra já sentiu, porque eu também já tive dificuldade. É entender o outro e se colocar no lugar do outro,” disse.

Dentro do que o MOBI construiu, Rosângela comenta que o café feminino trabalha pela inclusão e não pela exclusão.

“Na nossa metodologia, temos a pontuação, a avaliação. A lavoura é visitada e se a pontuação for baixa, ela é orientada no que pode melhorar. A gente não vai excluir. Por exemplo, se a mulher tem criança pequena e não pode participar da reunião, a gente apoia, pensa em meios para que ela possa participar, é uma fase da vida dela. Eu tenho três filhos, conheço a realidade da agricultora,” declarou.

Selo de Certificação

O café feminino é do tipo especial, orgânico e sustentável, com notas de chocolate, nozes e avelã e pontuação média de 80 a 84 pontos. Para receber o selo do café feminino existe uma certificação. Através de uma metodologia desenvolvida em parceria com o IF Sul de Minas, são promovidos dias de campo para que agricultores e técnicos avaliem a lavoura e pontuem de acordo com critérios preestabelecidos, como envolvimento da mulher no processo de produção, atuação administrativa e operacional e participação na cooperativa. A certificação participativa do café feminino é uma forma de promover a troca de experiências, o protagonismo e a visibilidade do trabalho da mulher no campo.

“Com essa conversa você entende se aquela mulher é operacional ou se ela é está na administração, se ela é parte do processo. Ela precisa ser parte do processo o tempo todo para ser café feminino. Se ela for, nós vamos registrar e se ela não for, nós vamos abraçá-la, conduzi-la e fazer tudo para que ela venha a ser,” destacou Rosângela.

Desde que foi lançado oficialmente, o café feminino tem conquistado cada vez mais o mercado nacional e internacional. Em 2014, foi o café servido na Copa do Mundo e em 2016, esteve também nas Olimpíadas realizadas no Rio de Janeiro. Além disso, em 2020 bateu o recorde exportando cerca de 100 mil sacas de café cru.

Mulheres na cafeicultura

Uma pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e apresentada na Expocafé 2021, aponta que mais de 40 mil estabelecimentos agrícolas com produção de café são dirigidos por mulheres no Brasil, o que equivale a 13,2% do total de 304.500 existentes. Os números da pesquisa foram extraídos do Censo Agropecuário 2017, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pesquisa aponta ainda que em codireção dos estabelecimentos de café arábica são 32.400 mulheres e 15.700 mulheres em estabelecimentos com café canephora. De acordo com a pesquisa, codireção é quando ao menos parte das atividades realizadas na propriedade tem decisões tomadas por ambos os cônjuges. No total, são 88.700 mulheres dirigindo e codirigindo estabelecimentos com café em todo o Brasil.

Já com relação à área dos estabelecimentos, a pesquisa aponta que as mulheres são responsáveis por 815 mil hectares, ou 9,1% do total. No Sudeste, são 594 mil hectares sob o comando de mulheres, sendo 65,7% localizados em Minas Gerais. Ainda de acordo com os dados apurados, as mulheres têm menos acesso a tecnologias de produção, mas nas propriedades dirigidas por mulheres existe maior equidade de gênero.

“É um espaço que já foi muito mais masculino, mas continua com os homens sendo maioria, nós mulheres precisamos tomar parte desse espaço, porque a gente tem muito para contribuir com a nossa sensibilidade, nossa força, o nosso cuidado para com o café. Se mais de 50% da nossa população é de mulheres, se nós temos mais de 50% da mão de obra rural composta por mulheres, entendemos que esse espaço de equidade é justo. Sempre falo com muito carinho e respeito, a gente não está aqui para medir forças com os homens, a gente está aqui para somar. Então, é muito prazeroso e gratificante ter esse espaço de caminhada junto,” finalizou Rosângela.

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